Em seu novo livro, Know-how, o consultor Ram Charan define as habilidades decisivas para presidentes de empresas em um mundo veloz
Ram Charan*
Know-how é o que distingue os líderes realizadores – que produzem resultados – dos não-realizadores. É a característica inconfundível daqueles que sabem o que estão fazendo, que criam valor no longo prazo e alcançam metas de curto prazo. O que atrapalha a identificação de profissionais realizadores é a aparência de liderança. Por vezes, vejo pessoas serem escolhidas para cargos superiores com base em características pessoais superficiais, como:
• A sedução por conhecimentos superficiais:
"Ele é extremamente inteligente e muito analítico. Tenho a intuição de que ele tem capacidade para a função".
• Presença dominante e grande capacidade de comunicação:
"A apresentação foi impressionante. Não entendo como ela conseguiu condensar todas as informações em PowerPoint. Certamente tinha o comitê na palma da mão. Ouça o que estou dizendo: ela vai chegar ao topo".
• Poder de visão arrojada:
"Que visão fantástica ele projetou para a nossa trajetória de progresso!"
• Idéia de um líder nato:
"Os profissionais do grupo o adoram. Que capacidade para influenciar e motivar pessoas!"
É claro que inteligência, autoconfiança, capacidade de comunicação e visão são fatores importantes. Mas, pelo fato de ser dotado de grande inteligência, não significa que o profissional tenha talento para tomar decisões nos negócios. Quantas vezes já não vimos gente confiante tomando decisões que se revelaram desastrosas? Quantas vezes não vimos idéias que depois se revelaram retórica vazia?
As mudanças são uma constante em nossas vidas, mas a magnitude, a velocidade e a intensidade com que elas ocorrem hoje diferem de tudo o que a maioria já vivenciou. Um Google, por exemplo, pode surgir do nada e transformar-se em um negócio bilionário em poucos anos, tornando-se uma das empresas mais valiosas do mundo. Ao lado de enormes oportunidades há também armadilhas que podem fazer desaparecer empresas e setores inteiros. Pense, por um instante, nos desafios que o Google representa para empresas nas áreas de publicidade, telecomunicações e mídia. Concorrentes de nível internacional podem surgir de qualquer lugar graças à mobilidade de bons profissionais, capital e conhecimento.
Seu know-how para conduzir a empresa na direção certa será constantemente posto à prova. Você será capaz de fazer as coisas certas, tomar as decisões corretas, produzir resultados e deixar a empresa e seus funcionários em situação melhor do que estavam antes? Atributos pessoais constituem apenas uma pequena parte da questão da liderança, e seu valor diminui muito sem as oito competências – descritas nas páginas seguintes – que introduzem a liderança no âmbito dos lucros e perdas.
| 1 - Competência para posicionar a empresa |
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| E capacidade para mudar o negócio sempre que o mercado assim exigir |
| As ameaças da tecnologia |
| A Blockbuster é um exemplo da dificuldade de manter o imperativo de ganhar dinheiro quando muda a base de sustentação dos negócios. Os tremores de mudança externa foram causados por Hollywood e por mudanças de tecnologias. Três CEOs não conseguiram fazer o ajuste necessário. A Blockbuster foi fundada com a premissa de comprar fitas de vídeo dos filmes de Hollywood e locá-las aos consumidores. No final da década de 80, os videocassetes tinham preço acessível e eram corriqueiros, e o cinema se tornou território de adolescentes e jovens. Adultos e famílias preferiam assistir a filmes no conforto de seus lares. As fitas eram compradas de distribuidores a crédito, os clientes pagavam pela locação à vista e a margem de lucro era elevada. Em meados dos anos 90, várias mudanças começaram a afetar o posicionamento confortável da empresa. Hollywood passou a distribuir filmes para o cinema ao mesmo tempo em que os disponibilizava para as locadoras. Além disso, as TVs a cabo e por satélite constituíram um novo canal, oferecendo aos consumidores vídeos sob demanda. A Blockbuster se reposicionou para dar mais destaque à venda que à locação. Isso fazia sentido da perspectiva do que os clientes queriam, mas as margens de venda de fitas eram muito menores do que as de locação. Viriam depois DVDs, locação de filmes e downloads pela internet. As investidas de Steve Jobs, em colaboração com as redes ABC, NBC e algumas empresas de TV a cabo, para disponibilizar conteúdo em aparelhos portáteis, provavelmente afetarão ainda mais a Blockbuster. |
| 2- Competência para identificar mudanças externas |
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| Detectar tendências em um mundo complexo, para colocar a empresa na ofensiva |
| Sessões de sonhos com clientes |
| Jeff Immelt, presidente da General Electric, desenvolve e aprimora essa habilidade em reuniões com os clientes, que ele chama de "sessões de sonhos". Ele convida profissionais de um setor-cliente por vez, geralmente CEOs, e um ou dois de seus assistentes para ir ao centro de aprendizagem GE, em Crotonville, Nova York, para uma sessão de um ou dois dias, nos quais as discussões e apresentações são voltadas para o que cada um dos participantes visualiza para um longo período de tempo – até dez anos. Discutem tendências externas, as causas básicas dessas tendências, como podem convergir, e como seria esse panorama, visto dos mais diferentes ângulos possíveis, inclusive de clientes, fornecedores, agências reguladoras, grupos de interesse especial e tendências em tecnologia. Nesse tipo de debate, todos aprendem quais são as possíveis diferentes imagens do futuro. O propósito mais importante é verificar quais são os fatores determinantes, o que deve acontecer e quais seriam os primeiros sinais de alerta. O que Immelt faz com êxito nessas sessões de sonhos com clientes é produzir um grande reservatório de conhecimentos sobre o cenário dos negócios mundiais. Ele também amplia sua visão e aumenta a autoconfiança, ao dissipar a névoa da incerteza. |
| 3- Competência para "reunir os gatos" |
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| Integrar os funcionários para tomar decisões melhores e mais rápidas |
| Encontro de egos |
| Paul Charron tornou-se CEO da grife Liz Claiborne em 1995. Era, essencialmente, uma empresa de uma só marca. Ao ampliá-la, por meio de mais marcas, canais e um melhor mix de produtos, a Liz Claiborne superou o desempenho do setor por cerca de uma década. Talvez a realização mais importante de Charron tenha sido a maneira como ele mudou o sistema social da empresa, para combinar criatividade com comércio e motivar melhores decisões. Como muitas das atividades dessa era do conhecimento, a moda depende decisivamente da capacidade de perceber a próxima tendência antes da concorrência. Os profissionais de moda têm a reputação de não conseguir trabalhar em conjunto e não se preocupar muito com as vendas. Mas trata-se de um negócio. A disputa é feroz e, se o produto errado for produzido, os estoques se acumularão. Uma mudança promovida por Charron foi criar um mecanismo para aproveitar dois aspectos de seu pessoal de criação: primeiro, as percepções pessoais do mercado e das tendências da moda e, segundo, a sensibilidade para o que terá saída nas áreas de especialidade de cada um. Ele implementou encontros semanais reunindo profissionais de marketing, designers e varejistas de todas as marcas para discutir tendências, níveis de preços e seleção de roupas. As reuniões deveriam produzir, nesse caso, uma visão mais ampla e novas idéias, em vez de decisões. |
| 4- Competência para avaliar pessoas |
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| Como selecionar e formar outros líderes para a empresa |
| Como ir fundo na avaliação pessoal |
| Você melhora as avaliações que faz das pessoas ao refletir acerca de seus erros e ao se conscientizar de seus próprios bloqueios psicológicos. Até Jack Welch, famoso por seus instintos sobre pessoas, teve de se dedicar a isso. Em sua autobiografia, ele relata erros iniciais de contratação de profissionais, mas, no final da carreira, era um mestre na arte de selecionar pessoas, tirar o melhor delas e livrar-se das que estivessem na função errada. No início, deixava-se muitas vezes seduzir pela aparência do candidato, sua eloqüência ou credenciais acadêmicas. Com o passar do tempo, porém, ele começou a cruzar suas avaliações, solicitando diferentes opiniões sobre profissionais-chave. Welch investiu tempo para conversar e conhecer seus subordinados diretos. Prolongava as discussões por horas até ter certeza de que conhecia seus subordinados a fundo. Como vasculhar a verdade nas pessoas se tornou hábito, as avaliações de Welch melhoraram e sua percepção tornou-se magnífica. Uns de seus grandes legados é sua organização de processos para avaliação de pessoas, baseados em substância e múltiplas perspectivas. |
| 5- Competência para moldar equipes |
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| Conseguir que subordinados altamente qualificados e com ego enorme trabalhem em perfeita harmonia |
O ponto central dessa habilidade é fazer os membros da equipe entender, priorizar e comprometer-se com a empresa como um todo. Você deve ajudá-los a formar uma imagem detalhada da empresa, como você a vê em seu contexto externo. Dessa maneira, eles saberão como suas respectivas áreas se encaixam. Você deve moldar também o comportamento das pessoas. Com freqüência, profissionais talentosos e ambiciosos estão focados em um só objetivo, quase não se dando conta do que seus colegas estão fazendo. Por vezes, nutrem grande desconfiança entre si. Recursos e informações são ocultados, e a comunicação é esporádica e formal. Você é quem tolera ou provoca interesses pessoais mesquinhos, egos enormes e personalidades dominantes.
| Responda com franqueza: |
| • Alguns líderes preferem lidar com cada pessoa individualmente. Você está disposto a investir sua energia e seu tempo para moldar seus subordinados em uma equipe de alto desempenho? • Você é daqueles que sentem um desconforto psicológico ao lidar com seus subordinados diretos como equipe, mas não individualmente? Acha que consegue superar esse desconforto? • Tem segurança para discordar do comportamento de um subordinado quando ele não é adequado à equipe, mesmo que ele seja um executor de primeira e/ou tenha forte personalidade? • Já definiu e comunicou à equipe os comportamentos esperados e conseguiu que ela se comprometesse a adotá-los? Eles estão vinculados a recompensas? • Inclui como princípio fundamental para seleção e avaliação de subordinados diretos a disposição de tornar a equipe mais eficiente, mesmo que suas áreas sejam prejudicadas? • Cultiva franqueza, confiança e honestidade intelectual entre seus subordinados, assegurando que os conflitos sejam evidenciados e resolvidos sem concessões, dando feedback e orientando o comportamento da equipe? • Incentiva seus subordinados diretos a comunicar-se e acertar-se, em vez de ter de passar por você como líder? • Os subordinados conseguem internalizar bem a empresa como um todo, da maneira como você a vê? |
| 6 - Competência para estabelecer objetivos |
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| Determinar o conjunto de metas que equilibram o que a empresa pode vir a ser com o que ela pode alcançar de modo realista |
| Missão impossível |
| Quando Rick Wagoner assumiu o comando da General Motors em 2000, defrontou-se com um dilema. A fatia de mercado da GM estava diminuindo, vítima de intensa pressão da concorrência. Wagoner estabeleceu uma meta arrojada: interromper a corrosão na participação de mercado e depois invertê-la. Mas a realidade interferiu nesses planos grandiosos. Em 2001, a fatia de mercado da GM cresceu um pouco, mas a geração de caixa e as margens operacionais diminuíram. No ano seguinte, todos esses indicadores caíram. E no ano subseqüente também. Em 2005, a GM estava claramente em perigo. Ela perdera quase US$ 5 bilhões enquanto lutava para fortalecer as vendas com a concessão de grandes descontos. O que saiu errado? Wagoner estabeleceu uma meta inatingível. Uma análise mais detalhada de seus maiores concorrentes, Toyota e Honda, revela como seria extremamente difícil, até mesmo impossível, alcançar esse objetivo. A Toyota e a Honda têm várias vantagens operacionais competitivas sobre a GM. As duas empresas japonesas são mestras em desenvolver e produzir novos modelos velozmente, exibindo a melhor tecnologia automotiva com maior rapidez que a GM, além de incorporar os recursos de design que os consumidores desejam. |
| 7 - Competência para fixar as prioridades |
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| Definir um caminho e alinhar recursos, ações e energia para realizar os objetivos |
| Ordem no caos |
| A fusão entre a Mercedes Benz e a Chrysler parecia destinada ao fracasso desde o início. Anunciada como "fusão entre iguais", logo ficou claro que a Daimler Benz estava fazendo da Chrysler uma subsidiária. A indignação, entre os dirigentes da Chrysler, era evidente. Ocorre que eles pareciam não ter capacidade para criar o tipo de produto inovador que o consumidor americano queria. Exasperado e sob crescente pressão dos acionistas, o CEO da Daimler Benz, Jurgen Schremp, trouxe Dieter Zetsche para recuperar a Chrysler, utilizando métodos que ele empregara na divisão Mercedes Benz da Daimler. Sua primeira prioridade foi desenvolver os produtos certos – carros e caminhões que causassem viva impressão nos consumidores e rivalizassem com as ofertas de Toyota, Honda e Nissan. A segunda prioridade foi estabilizar o quadro gerencial, desanimado e desajustado. Zetsche impôs ordem ao caos ao selecionar as pessoas certas para as funções certas. Por fim, estabeleceu estreitas relações de trabalho com os fornecedores, o que gerou ganhos de custo e produtividade. Os novos produtos receberam críticas bastante positivas da mídia e dos consumidores. A Chrysler ganhou pontos de participação no mercado e gerou lucros. |
| 8- Competência para enfrentar forças externas |
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| Prever e reagir às pressões sociais fora de seu controle, mas que podem afetar a empresa |
| No tribunal da opinião pública |
| Embora as agências reguladoras da União Européia tenham dado permissão à Monsanto para vender produtos geneticamente modificados, a reação dos consumidores no continente beirou a histeria. Alguns grupos ambientais e a mídia rotularam seus produtos de "comida Frankenstein". Os esforços da Monsanto no sentido de deter as críticas – uma campanha publicitária de US$ 5 milhões – inflamaram a opinião pública por seu ar de superioridade. O CEO fez uma aparição surpreendente, em uma mensagem por vídeo, na reunião anual do grupo ambiental Greenpeace, que se tornou arquiinimigo da Monsanto. Ele admitiu que a empresa subestimara a desconfiança do público a respeito dos alimentos modificados. Logo depois, a Monsanto fundiu-se com os laboratórios Pharmacia & Upjohn. Os termos da fusão refletiram o desejo da Pharmacia de incorporar a divisão Searle da Monsanto e atribuiram um valor de praticamente zero ao plano de alimentar a crescente população mundial com safras geneticamente modificadas. |
*Ram Charan é consultor de empresas e conselheiro de CEOs americanos. Condensado de Know-how: as 8 Competências que separam os que fazem dos que não fazem (Editora Campus/Elsevier), com lançamento no Brasil previsto para março


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