segunda-feira, 29 de junho de 2009

Alvenaria Racionalizada

alvenaria de vedação pode ser definida como a alvenaria que não é dimensionada para resistir a ações além de seu próprio peso. O subsistema vedação vertical é responsável pela proteção do edifício de agentes indesejáveis (chuva, vento etc.) e também pela compartimentação dos ambientes internos. A maioria das edificações executadas pelo processo construtivo convencional (estrutura reticulada de concreto armado moldada no local) utiliza para o fechamento dos vãos paredes de alvenaria.

A alvenaria de vedação tradicional, que é usual nas edificações, apresenta as seguintes características:
  • Como não se utiliza projeto de alvenaria, as soluções construtivas são improvisadas durante a execução dos serviços
  • A mão-de-obra pouco qualificada executa os serviços com facilidade, mas nem sempre com a qualidade desejada
  • O retrabalho: os tijolos ou blocos são assentados, as paredes são seccionadas para a passagem de instalações e embutimento de caixas e, em seguida, são feitos remendos com a utilização de argamassa para o preenchimento dos vazios
  • O desperdício de materiais: a quebra de tijolos no transporte e na execução, a utilização de marretas para abrir os rasgos nas paredes e a freqüência de retirada de caçambas de entulho da obra evidenciam isso
  • Falta de controle na execução: eventuais problemas na execução são detectados somente por ocasião da conferência de prumo do revestimento externo, gerando elevados consumos de argamassa e aumento das ações permanentes atuantes na estrutura.

    A figura 1 apresenta exemplo de alvenaria de vedação tradicional, com a utilização de tijolos de má qualidade e rasgos nas paredes para o embutimento das instalações.

    Figura 1 - Exemplo de alvenaria de vedação tradicional
    Com a tendência de utilização de estruturas cada vez mais esbeltas, têm surgido algumas patologias nas alvenarias, principalmente causadas por:
  • Utilização de balanços com vãos grandes e seções transversais reduzidas
  • Falta ou inadequação de vergas e contravergas nas regiões dos vãos
  • Qualidade deficiente dos materiais utilizados (tijolos, blocos e argamassas) e da execução
  • Problemas da ligação da estrutura com a alvenaria (ligação pilar/parede e encunhamento).

    A racionalização construtiva pode ser entendida como a aplicação mais eficiente dos recursos em todas as atividades desenvolvidas para a construção do edifício. Algumas das diretrizes de produção desenvolvidas inicialmente para a alvenaria estrutural são estendidas à alvenaria de vedação.

    Quando se pretende implantar conceitos de racionalização da construção, deve-se iniciar pela estrutura da edificação. Em seguida, deve-se priorizar a alvenaria de vedação. Isso porque o subsistema de vedação vertical interfere com os demais subsistemas da edificação: revestimento, impermeabilização, esquadrias, instalações elétricas e de comunicação, instalações hidrossanitárias etc. Todos esses serviços somados representam uma parcela considerável do custo de uma obra.

    Em contraponto à alvenaria tradicional, a alvenaria dita racionalizada (figura 2) apresenta as seguintes características:
  • Utilização de blocos de melhor qualidade, preferencialmente com furos na vertical para facilitar a passagem de instalações
  • Planejamento prévio
  • Projeto da produção
  • Treinamento da mão-de-obra
  • Utilização de família de blocos com blocos compensadores para evitar a quebra de blocos na execução
  • Redução drástica do desperdício de materiais
  • Melhoria nas condições de limpeza e organização do canteiro de obras.

    Inicialmente, a produtividade da mão-de-obra diminui em função da mudança de paradigma e da consulta ao projeto de alvenaria, além do embutimento dos eletrodutos e caixilhos durante a elevação das paredes. Em contrapartida, após o término a parede está pronta, sem necessidade de retrabalho. Com o passar do tempo e o treinamento dos operários a mão-de-obra se adapta ao novo processo.

  • Figura 2 - Alvenaria de vedação racionalizada
    Figura 3 - Transporte dos blocos paletizados em obra
    Planejamento e concepção

    Muitos fatores interferem na qualidade final da parede acabada, tais como: a regularidade geométrica da estrutura, a escolha dos blocos de vedação, as argamassas utilizadas para assentamento dos blocos e revestimento, além da mão-de-obra para a execução dos serviços.

    O mercado disponibiliza vários tipos de blocos e os mais utilizados são os de concreto, cerâmicos e de concreto celular. Algumas construtoras adquirem os blocos de vedação pelo menor preço, sem levar em conta aspectos importantes:
  • Dimensões, desvios de forma e peso de cada bloco, que influenciam na produtividade
  • Regularidade geométrica, que conduz a um assentamento mais uniforme com economia de argamassa de assentamento e revestimento
  • Condições de fornecimento: a paletização facilita o transporte até a
  • Absorção de água e aderência
  • Resistência mecânica
  • Movimentações higroscópicas e térmicas
  • Peso próprio das paredes: os blocos mais leves conduzirão a elementos estruturais com menores dimensões, em contrapartida a estrutura como um todo será menos rígida
  • Desempenho termoacústico

    No País inteiro, a maioria dos blocos cerâmicos comercializados não atende às especificações técnicas exigidas. A NBR 15270-1: 2005, dentre outros requisitos, especifica uma resistência mínima à compressão de 3,0 MPa para blocos cerâmicos de vedação com furos na vertical. Em grandes centros alguns fornecedores possuem certificação da qualidade comprovada. Dependendo do local da obra, a distância de transporte e o custo do frete tornam-se fatores preponderantes na escolha dos blocos.

    A tabela 1 apresenta dois exemplos de família de blocos cerâmicos com furos na vertical de diferentes fornecedores.

    A figura 4 apresenta a família de blocos do fornecedor 1 indicado na tabela 1.

  • Figura 4 - Família de blocos do fornecedor 1
    Compatibilização de projetos

    Antes de se pensar no projeto da alvenaria deve-se atentar para a coordenação de todos os projetos necessários para a execução da obra. As interferências dos projetos arquitetônico, estrutural e de instalações devem ser cuidadosamente analisadas e resolvidas na fase de anteprojeto.

    A modulação do projeto arquitetônico e estrutural, apesar de ser opção interessante, não é imprescindível para a utilização da alvenaria racionalizada. Como mostrado na tabela 1, o mercado disponibiliza famílias de componentes com blocos compensadores, que permitem a elaboração do projeto de alvenaria independentemente da modulação do projeto arquitetônico.

    As principais informações a serem obtidas do projeto arquitetônico são:
  • Dimensões internas dos cômodos e paredes acabadas (largura, altura e comprimento)
  • Localização e dimensões de aberturas (portas e janelas)
  • Tipos de revestimento externo e interno
  • Detalhes construtivos de fixação de contramarcos das janelas e marcos das portas
  • Previsão de juntas de controle
  • Detalhes arquitetônicos como sacadas, beirais e platibandas.

    As informações importantes do projeto estrutural são as dimensões dos elementos estruturais (lajes, vigas e pilares), as distâncias de face-a-face dos pilares que definem os vãos de paredes utilizados na sua paginação e a altura do pé-direito estrutural. É importante também verificar se na concepção estrutural a alvenaria funciona como travamento da estrutura.
    No projeto elétrico e de comunicações as seguintes informações são importantes:
  • Passagem de eletrodutos: os eletrodutos verticais passam por dentro dos furos dos blocos, sem necessidade de cortes dos mesmos
  • Utilização de shafts verticais nas prumadas das áreas comuns
  • Pontos de luz, tomadas e interruptores
  • Posição de quadros medidores: podem ser utilizados gabaritos de madeira durante a elevação das paredes.

    As principais informações coletadas do projeto de instalações hidrossanitárias são:
  • Utilização ou não de shafts verticais para as tubulações de água e esgoto
  • Localização de ramais hidráulicos
  • Instalação de peças sanitárias.

    Devem ser analisados também os projetos de instalação de gás, proteção contra incêndio e impermeabilização.

  • Figura 5 - Exemplo de planta de numeração de paredes
    Projeto de alvenaria

    A elaboração do projeto de alvenaria de vedação é fundamental para a racionalização dessa. Esse projeto tem como objetivo principal promover a organização da execução pela prévia tomada de decisões. Para a sua elaboração é necessária a compatibilização dos demais projetos da edificação, ou seja, arquitetônico, estrutural e de instalações.
    Para que a execução ocorra de forma adequada deve-se proceder à qualificação da mão-de-obra executante. Assim, podem ser evitados problemas como retrabalhos, desperdício de materiais e mão-de-obra, além de futuras manifestações patológicas.

    Como se trata de um projeto executivo, o projeto de alvenaria deve conter os seguintes desenhos e especificações:
  • Planta de numeração das paredes (figura 5)
  • Planta de primeira e segunda fiadas
  • Locação da primeira fiada
  • Paginação ou elevação de cada parede
  • Definição quanto ao uso de vergas e contravergas
  • Especificação dos componentes da alvenaria: blocos e dosagem da argamassa de assentamento
  • Características das juntas entre blocos e na ligação estrutura/alvenaria
  • Detalhamento das ligações alvenaria-estrutura.

    A elevação de cada parede deve contemplar os tipos de blocos, a quantidade de cada um, as dimensões das aberturas, a posição de vergas e contravergas, o posicionamento de eletrodutos e caixas de luz, telefone, antena, Internet e outros, além dos detalhes de ligação entre paredes e entre as paredes e a estrutura, como exemplificado na figura 6.

    Todas as paredes de um projeto de alvenaria devem ser detalhadas separadamente. A sobreposição de projetos em versão digital pode ser utilizada e, assim, todos os componentes da parede podem ser identificados com maior facilidade.

    O projeto de alvenaria deve possuir todas as informações para a execução das paredes com a incorporação de componentes como as instalações. Assim, não deve existir a necessidade da consulta simultânea de vários documentos, o que pode induzir a erros.

  • Figura 6 - Exemplo de elevação ou paginação de parede
    Ligação estrutura-alvenaria

    A interface alvenaria-estrutura deve receber especial atenção no momento da elaboração do projeto. A diferença de natureza dos materiais leva a comportamentos diferenciados durante a vida útil da edificação.
    Além disso, as estruturas têm se tornado cada vez mais esbeltas, existindo então maior possibilidade de deformações, o que pode tornar as ligações alvenaria/estrutura mais suscetíveis a problemas.

    O uso das telas metálicas eletrossoldadas como componentes da ligação entre parede e pilar foi proposto com o objetivo de reduzir o tempo de instalação do dispositivo, o que acarreta um aumento da produtividade na execução das alvenarias. É uma forma bastante eficiente, sendo que o seu uso tem se tornado bastante freqüente.

    As telas metálicas eletrossoldadas disponíveis no mercado possuem malha de 15 x 15 mm e fio de 1,65 mm. As telas são fixadas aos pilares por meio de pinos de aço com arruelas utilizando finca-pinos acionado à pólvora (figura 7). No momento da elevação das alvenarias essas telas são inseridas nas juntas horizontais de argamassa.

    Para a execução de amarração entre paredes, as telas permitem execução prévia de uma das paredes, sendo a elevação da outra parede concorrente feita em uma segunda fase.

    Exceto nos casos em que se deseja o trabalho conjunto alvenaria-estrutura, as ligações das paredes com as vigas e lajes não devem ser rígidas.

    Uma maneira de tornar essas ligações deformáveis é a utilização de tijolos de barro cozido assentados com argamassa fraca de cimento.

    Sempre que possível esses devem ser assentados em posição normal com a utilização de argamassa flexível.

    Neste caso esses tijolos contribuem para a não existência de uma camada de argamassa de espessura muito elevada, além de aumentar a capacidade de absorver deformações. A espessura adequada para essa junta de fechamento superior, denominada junta horizontal de fixação é por volta de 2 a 3 cm.

    No caso dos blocos para alvenaria de vedação possuírem furos na vertical, a última fiada pode ser executada com a utilização de blocos menores (compensadores ou meio-blocos) assentados deitados, ou seja, com os furos na horizontal. Também podem ser utilizados blocos canaleta ou mesmo os tijolos de barro cozido.

    Nesse caso deve-se deixar uma folga para o encunhamento flexível com o uso, por exemplo, da argamassa fraca de cimento, ou de outros materiais que apresentem grande capacidade de acomodar deformações como, por exemplo, a espuma de poliuretano.

    O detalhamento desse tipo de interface em um projeto de alvenaria de vedação pode reduzir consideravelmente o índice de patologias presente nas paredes das edificações prontas.

    As deformações diferenciadas entre as vedações verticais e as estruturas estão presentes ao longo de toda a vida útil da edificação, e, sendo assim, é necessário que essas sejam compatibilizadas, devendo existir então planejamento e detalhamento em projeto.

    Quando essas interfaces não são bem planejadas se observa o desempenho insatisfatório das alvenarias sob ações para as quais não foram projetadas.

    Figura 7 - Exemplo de utilização de telas metálicas na ligação parede-pilar
    Conclusão

    Observa-se que apenas a existência do projeto de alvenaria não é suficiente para a implantação da alvenaria racionalizada na obra. É importante investir em motivação e treinamento da mão-de-obra, equipamentos e conscientização de todos os envolvidos no processo de produção.

    É importante enfatizar que a alvenaria racionalizada deve ser considerada de forma integrada, desde a fase de projeto arquitetônico, estrutural e de instalações, o próprio projeto de alvenaria e até as definições de esquadrias e revestimentos.

    Além de melhorar a qualidade das vedações verticais, a racionalização da execução da alvenaria tem efeito indutor na melhoria da qualidade da construção do edifício como um todo, possibilitando novas soluções para os outros subsistemas da edificação.


    Leia mais

  • NBR 15270-1: Componentes cerâmicos - Parte 1: Blocos cerâmicos para alvenaria de vedação - Terminologia e requisitos. Associação Brasileira de Normas Técnicas. Rio de Janeiro, 2005.
  • Execução e inspeção de alvenaria racionalizada. A. C. Lordsleem Júnior. Coleção Primeiros Passos da Qualidade no Canteiro de Obras. Editora O Nome da Rosa, São Paulo, 2000.
  • Qualidade na aquisição de materiais e execução de obras. R. Souza & G. Mekbekian. CTE, Sebrae/SP e SindusCon/SP. Ed. PINI, São Paulo, 1996.
  • Diretrizes para o projeto de alvenarias de vedação. M.M.A. Silva. Dissertação (Mestrado), Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2003.
  • Tecnologia, Gerenciamento e Qualidade na Construção. E. Thomaz. Ed. PINI, São Paulo, 2001.


    Veja e-mail dos autores:

    Reginaldo Carneiro da Silva, professor-adjunto da DEC/Universidade Federal de Viçosa
    recsierra@ufv.br

    Márcio de Oliveira Gonçalves, bolsista PIBIC/CNPq
    marciogoncalvesufv@yahoo.com.br

    Rita de Cássia S. S. Alvarenga, professora-adjunta da DEC/Universidade Federal de Viçosa
    ritadecassia@ufv.br


    Téchne 112 - julho de 2006

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