quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

"Empresas-anãs" podem ter vida longa e qualidade

"As empresas-anãs nasceram para não crescer, porém podem ter solidez e clientes fiéis anos a fio." A declaração é do especialista em pequenas e médias empresas e também em empreendedorismo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), de São Paulo, Francisco Guglielme Júnior. Segundo ele, esta é uma característica de diversas empresas como clínicas especializadas em cirurgia plástica, fabricantes de massas artesanais, restauradores de móveis, algumas galerias de arte, dentre outros negócios, noticiou o jornal Valor Online.

As empresas-anãs estão sempre vinculadas à personalidade de seu dono ou de uma família e terão clientela cativa e estabilidade no mercado desde que continuem calcadas no diferencial da tradição. Como explica Guglielme Júnior, se elas crescerem entrarão em outras arenas de competição e aí a sorte do negócio estará em jogo. Segundo ele, esses imperativos de mercado são mais determinantes na opção por não crescer do que questões tributárias ou de governo.

"O grande erro de uma empresa tradicional e pequena é querer imitar os concorrentes maiores, quando ela cai na vala comum, e é apenas mais uma dentre tantas." Segundo o especialista, é bom deixar claro que tradição não quer dizer velho. "Uma empresa, independentemente de seu tamanho, deve acompanhar os movimentos mercadológicos e as inovações tecnológicas, sem descaracterizar seu estabelecimento, produto, marca ou embalagem."

De acordo com ele, um estabelecimento centenário pode ter instalações e móveis antigos, mas bem conservados. Entretanto, se ele não contar com um sistema de funcionamento computadorizado age errado. Ele disse que sempre é bem-vinda uma propaganda institucional que demonstre as vantagens competitivas daquela empresa. "Ficar pequeno não significa não divulgar o que se faz, um erro muito comum."

Já para o diretor de Integração Regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Mauro Miaguti, que é também um dos líderes do programa Empretec no país, programa criado pela ONU após a Segunda Guerra Mundial, com foco no empreendedorismo, a tradição é um bom atrativo, mas nenhuma empresa conseguiria ter vida longa se seus produtos e serviços não tivessem alguma qualidade.

Para ele, a postura do empresário é o que determina a longevidade ou não de um negócio. "Até a decisão de se permanecer pequeno requer muitas análises." A tradição de um local pode atrair clientes pela primeira vez em virtude da curiosidade, porém, se ao experimentar o produto ou os serviços ele não ficar satisfeito, dificilmente retornará ou comprará novamente daquele lugar. O sistema tributário brasileiro também contribui para que as pequenas optem por não crescer. "Mudar de degrau significa pagar impostos bem acima da proporção de crescimento."

De acordo com consultor de marketing do Sebrae -SP Gustavo Carrer, muitas empresas mantêm-se pequenas com medo de delegar funções. Elas têm administrações centralizadoras, mas quando se faz necessário abrir uma filial, contratar gerentes e mais funcionários, fica evidente a falta de traquejo para lidar com a nova realidade. A criatividade para lidar e superar os imprevistos Pequenos empresários acham que vão perder mais dois ou três dias se ficarem fechados estruturando-se melhor, mas isso ajuda sua empresa a crescer na verdade, informou a Gazeta Mercantil

A empresária Simone Flores não esquece o dia em que teve que ir para a cozinha de sua loja recém-inaugurada no bairro do Tatuapé, zona leste de São Paulo, para desfiar 20 quilos de frango que seriam usados no recheio de pastéis. O movimento de clientes foi tão acima do previsto para os primeiros dias de funcionamento da franquia da Pastel do Trevo de Bertioga Tatuapé que ela, o gerente e até o marido tiveram que ajudar na sua produção.

Simone afirma que a pior parte foi o da inauguração, feita na véspera da abertura ao público. A casa estava lotada, porém nada de pastel. O fogão de fritura não funcionava porque faltava uma peça e como a produção não havia sido testada com antecedência o problema só foi descoberto na hora. "Foi um erro nosso", assume a empresária. Para piorar o clima de confusão, quando o marido saiu para tentar achar um substituto para aquela peça, o carro quebrou e ele teve que ir de táxi procurar a solução do problema. Por fim, foi adaptado um maçarico ao fogão e só pode-se experimentar os pastéis por volta das 23 horas, conta Simone.

A empresária viu-se obrigada a reformar o imóvel recém-inaugurado para acomodar no andar de cima mais equipamentos incluindo geladeira, freezer, um novo fogão com tacho de fritura de pastéis destinado exclusivamente aos pedidos de delivery e uma área maior para o estoque. O número de funcionários também aumentou e alguns foram inscritos em cursos do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) porque antes da abertura da loja só tinham a experiência prática de trabalhos anteriores e um treinamento oferecido pela franqueadora.

Hoje Simone recorda-se de maneira divertida dos apuros que passou no começo, mas para muitos empresários os imprevistos dos primeiros dias de um negócio podem afetar de maneira dramática a vida da empresa. "Pode ser um fator decisivo ter um dimensionamento aquém ou muito elevado em relação à demanda", afirma Gilberto Rose, consultor de orientação empresarial do Sebrae-SP. Ele recomenda que as novas empresas façam um bom planejamento e estruturem-se bem antes de abrir. Segundo Rose, os pequenos empresários acham que vão perder mais dois ou três dias se ficarem fechados estruturando-se melhor, mas, na verdade, saem ganhando com esses dias de treinamento "porque é o investimento deles que está em jogo".

Fonte: Pequenas Empresas, Grandes Negócios

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